O tempo da intenção não é necessariamente o tempo da fisiologia.
O corpo tem um tempo seu, orgânico, variável e que não deve obediência ao pensamento. Que estranho vivermos numa cultura onde a dissociação é tão premiada face ao que o corpo, micro ecossistema vivo, verdadeiramente precisa.
Vontade e necessidade raramente são a mesma coisa. A maioria de nós nem se apercebe da diferença entre o que quer e o que precisa. Isso advém da ausência de um diálogo sensível entre pensamento e fisiologia, cultivada secularmente num divórcio que nos dilacera e fragmenta.
Se dois terços da regulação nervosa acontecem do corpo para o cérebro e apenas um terço do cérebro para o corpo, estamos então numa luta cultural secular que nos adoece fisicamente e onde a mente se isola artificialmente para seguir um caminho sem raízes, alienada do corpo que a nutre e sustem. Da mesma forma,o corpo é alienado da Terra viva a que pertence enquanto mamífero, micro ecossistema interdependente de forma recíproca do macro ecossistema maior, o planeta vivo e consciente .
A ideia de dominar, controlar o corpo é a mesma que vemos face ao planeta e o desequilíbrio paralelo. Quanto mais exploração rumo à produtividade incessante custe o que custar, menos relação, quanto menos relação menos regulação, quanto menos regulação menos saúde e quanto menos saúde menos relação num ciclo que só começa a quebrar quando o animal em nós morde e rasga amarras e açaimes que se lhe afiguravam seguros.
Porém, o selvagem não é uma força limpa, estética, asséptica, aceitável. O corpo selvagem vai abrir lugares de relação dolorosa, paradoxal, visceral de tão verdadeira, connosco e através do tempo.
Queremos sempre a cura sem sujar as mãos de sangue. Mas não é sobre isso um corpo mamífero parte íntegra de um planeta vivo. É sobre envolvimento pleno nas forças francas que nos destabilizam rumo a um equilíbrio que só tem lugar quando o desvio face à norma acontece. Um equilíbrio que nunca será permanente mas fluído, rumo a paisagens sempre mais largas de relação e desenvolvimento de resiliência.
A visceralidade e a gentileza podem caminhar juntas, devem até. No parto, na morte, na doença, na dor temos a oferenda da oportunidade de viver não para corrigir quem somos rumo à perfeição e pureza, mas rumo à integridade complexa, múltipla e em constante transformação de um corpo vivo numa psyche que peregrina constantemente entre paisagens internas e externas que se tocam em relação.
Amadurecer é talvez isto: fazer dos lugares viscerais e sanguíneos espaços de cerimónia, trazer gentileza ao que é como é, ser humilde diante do tempo do corpo sem que a cabeça se torne um agente opressivo do que devemos ou não fazer na vida e possa por fim, descansar sobre o pulmão e o coração, e no tempo íntimo e único de cada dia. Tecer um lugar de acção sensível para connosco e para com todas as nossas relações. E isso, é prática de vida e não tem receita, tem sim, presença sensível em escuta e ressonância. Alinhamento com o tempo é permitir que nos toque e teça, rumo à vida no seu estado mais cru e real.
Faz-vos sentido?
No Laboratorium encontram o Curso Livre Corpo de Terra que adentra várias reflexões eco-somáticas.
Em Maio iniciamos o Ciclo de Práticas Chão Coração, onde mergulhamos pelo movimento neste tema.





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