biblioteca livre

Senhora da Estrela

por Íris Garcia

Olha a Estrela d’Alba
Chama da manhã
Guia do bom pastor
Norteias a direcção
A quem levanta o olhar, mantendo pés assentes no chão.
Esquecemos que tudo e todos somos filhos da Mãe. Da mesma Mãe.
Tão Negra que é terra fértil.
Tão negra que é noite infinita.
Só a noite pode ser Mãe de todas as estrelas, sóis, luas e planetas debaixo de um céu útero eterno, infinito, além da imaginação ou visão.
Senhora da Estrela que és noite profunda universal e cauda da Ursa constelação. Traças o Norte que nos dá orientação, mas a orientação suplanta a direcção para que aponta. É mais além ainda, para sermos como a árvore que cresce em ramos e portanto adentra tão mais profundamente as raízes.
Falas de sustentação sem materialismo, de saber em total humildade ante o mistério que És, que É, que somos e que é maior do que a percepção , mais além do que o Norte mas para lá é preciso ir caminhando passo a passo, dia a dia, gesto a gesto.
Viemos abraçar o sagrado em tudo, sobretudo no que não compreendemos e ainda mais no que pensamos já compreender. Nada é estanque e todo o conhecer é necessariamente re-conhecer: ir conhecendo novamente aquilo que é agora e que é a transformação do que foi através não de quem éramos mas de quem nos estamos tornando num movimento inextinguivel.
Senhora da Estrela.
Trazes o manto da noite sobre ti, ponteado a prata estelar e a noite negra terra. Trazes a morte que é a maior fecundidade e portanto o início da vida. És Boa Morte, Bom Parto, Bom Caminho, Guia.
Trazes a consciência total e que nunca deixa de se expandir, renovar, transformar.
Trazes o tempo do céu que foi, o Sol que ilumina as estrelas que já partiram e ainda assim são mapa de ancestralidade e berço das estrelas que não vemos ainda mas que já existem em ti.
Seguir o teu caminho é subir a serra no crepúsculo durante a noite de olhos abertos.
Seguir o teu caminho é descer a serra na alvorada de olhos fechados durante o dia.
É encontrar a luz na treva e a sombra no dia, para abraçar a complementaridade natural a quem sabe que a inteireza é assimétrica, irregular, relevante em cada relevo e reentrância.
Senhora da Estrela o teu seio é a Via láctea que só beijar a aurora se torna Rio que das águas fluídas nutre tudo o que vive e a todos se dá a beber.
Tu és quem serena todas as fomes e alentas todas as sedes.
És Senhora do Leite, da fonte de estrelas d’Agua da montanha. Quando a noite beija a Terra lá bem no como da serra a estrela faz – se pedra e pedras são ossos do chão. Nada de finda tudo é continuação de uma memória criando permanentemente e recíproca relação.
A água por nós bebida é sangue. O alimento vindo do chão que é pó fecundo do osso da Terra que a nossa boca adoça e corpo nutre será osso dentro de nós. Nem dentro estamos sós ou separados.
Não há separação, tudo é continuidade cíclica e portanto necessariamente heterogénea, diversa, múltipla, similar mas irrepetível, constantemente evolutiva até no retorno.

Por isso :
Vou.
Não sei por onde mas vou.
Não vou sozinha porque não há como não te ter debaixo e diante dos pés, não há como não te respirar , não há como não te testemunhar observando – me como a mãe faz à criança que dá os primeiros passos e a vê cair para a poder ver levantar – se inteira, na dignidade de se erguer de si mesma, da força da sua vontade conectada ao chão, sopro e céu infinito que é na verdade o corpo da confiança.
Onde se cai há sempre amparo do chão, tudo o que quebra também abre e ensina a cura e a compaixão, é quando no chão que mais ampla é a visão.
Se faz caminho, caminhando.
Trazemo-la na palma da mão, linha da vida a sementes e estrelas parida.
Do Norte.
Da Estrela.
Não vês?
Pouco importa a tua crença. A pertença é intrínseca e intrincada. És aqui, vista e parte da Teia Terra Constelação.
Não notas que não há senão continuidade entre o céu e o chão? Onde estamos, bem aqui no abraço de ambos, pulsa o coração.

~

*Imagem criada com recurso a IA, sob direção artística e conceito original.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Íris Garcia

AUTORA

Sou Mulher, Mãe, Mamífera, neuro-diversa e altamente sensível.

O meu trabalho é o entrelaçamento vivo de animismo, corpo, herbalismo e terapia.

Terapeuta de trauma, educadora eco-somática, herbalista, doula de nascimento, autora, bailarina, cerimonialista, investigadora do animismo (xamanismo) bio-regional celtibérico.

Curiosa e devota dos caminhos vivos que mapeiam o chão e a alma.

~

Todos os conteúdos são da autoria de Íris Garcia, que como criadora intelectual dos textos, detêm o direito autoral das mesmas sob a Licença Pública CC BY-NC-ND

Íris Garcia

Sou Mulher, Mãe, Mamífera, neuro-diversa e altamente sensível.
O meu trabalho é o entrelaçamento vivo de animismo, corpo, herbalismo e terapia. 
Actuo enquanto Terapeuta de trauma e doula, especializada em saúde feminina, trauma gestacional, de parto, pós parto, maternidade, perda e interrupção gestacional, trauma transgeracional, alta sensibilidade e neuro-diversidade. Educadora eco-somática, de dança ancestral ritual, animismo e paganismo Ibérico, centrado no culto das Senhoras enquanto Natureza Selvagem.Herbalista especializada em saúde da Mulher,  cozinha medicinal, tradições populares, eco-mitologia e culto pagão das plantas. Investigadora voraz, criadora ardente, facilitadora e autora no compromisso do cuidado ao sensível e ao profundo. Curiosa e devota dos caminhos vivos que mapeiam o chão e a alma.

~

Todos os conteúdos são da autoria de Íris Garcia, que como criadora intelectual dos textos, detêm o direito autoral das mesmas sob a Licença Pública CC BY-NC-ND