Há 44 anos que lhe conheço veias e estrias.
Abismos por entre o tecido do tempo que a traça e desenlaça para quem a vê na sua dimensão mais desigual e inteira.
Habito o corpo social na sua dimensão mais rebelde e portanto mais crua.
Na que não se esquiva.Esta avenida conta tão bem a história da supressão e opressão: da Natureza pela arquitectura estética que afirma o domínio humano nas forças selvagens do rio e lameiro.
Dos cultos de Ataégina, Cibele, Athena dormentes em aras que ecoam debaixo da calçada. De gentes pobres que calcetavam o chão e lhe deram estrutura, de outros tantos que ali vendiam secularmente de sol a sol e a percorriam para trabalhar em casas finas. Desses não há memória, são pó, embora fossem maioria.
Restam as estátuas das gentes ricas, cultas e bem vestidas que pouco ou nada agradeciam a quem as servia e ainda se posicionavam como seus salvadores.
Pouco mudou, mais a estética da roupa que o comportamento.
A meio do caminho passo por Carlos Moedas e sua equipa. Assomada pela estranheza do encontro noto que fala de quiosques e planeamento da rua.
Literalmente a seus pés pelo menos cinco moradores de rua deitados no sol abrasador e pedintes.
Ignorou cada um.
Passa um senhor com um grande saco da Louis Vuitton, compra recém feita.
Também os ignora.
O responsável pelo município não olha para baixo, não vê, não ouve, não comunica.
O presidente não é de todos, mas só de alguns.
Uma criança pergunta: porque é que aquele senhor está ali deitado no cartão?
Porque não tem casa.
A criança vê, questiona, choca-se.
O adulto tem um muro alto.
Não se relaciona.
Que estranho isto: desonramos os Bons Mortos. Não podem ser bosque nem jardim, nem memória, nem vida regenerada a nova voz.
Mas fazemos dos vivos pavimento, degrau onde pisa quem pode para chegar onde quer.
Esquecemos que estamos apenas a uma tragédia de distância de podermos ser nós. Sem tecto, sem alimento, sem saúde mental.
A nossa invencibilidade é tão precária que nos despe necessariamente de empatia. De facto, há na nossa cultura pessoas tão pobres que só têm dinheiro e tantas tão ricas que é apenas dinheiro que lhes falta para criar oportunidades e caminhos.
O que poderia eu fazer para apoiar?
Ocorrem-me várias coisas e nenhuma em particular como viável nas minhas circunstâncias. Mas fica a pergunta aberta, na humildade de aprender a escutar e entrar em relação, não na vontade de salvar superiormente.
Não sei. Não sei. Fica-me o eco. Não saber não é desistir, é apurar a escuta e a presença em serviço da sabedoria do tempo que requer a maturação.
Porém, é-me totalmente claro o que não posso jamais esquecer: desviar o olhar do sofrimento para me proteger e assim condenar a dignidade à invisibilidade que ao retira-la, mata.
Dói. A importância, a impotência, a confrontalidade. Sim, é exatamente esta a palavra: confronto e frontalidade fundidas em forja.
Liberdade é contudo, intrinsecamente, também isto.
Chega-me a urgência da invocação de Hécate, Senhora da Marginalidade. Puxa-me a mão até ser chão. Inimpressionável diante de título ou estatuto, a que carrega a tocha da verdade incandescente na sua multiplicidade e da incondicional orientação.
Estamos todas e todos, inevitavelmente, na sua Encruzilhada, no seu Portão. Na nudez do recém nascido e de quem parte.
Levando connosco apenas quem fomos e nos tornámos.
Muito mais próximos que distantes, mais semelhantes e vulneráveis do que desiguais.
Ela não premia nem pune. Acorda-nos com o seu rosto sem idade, o seu olhar que atravessa até à mais integral consciência.
Ela senta-nos na Encruzilhada e abre-nos por inteiro até que sejamos também, portal, labirinto e caminho cruzado.
Haja coragem para permanecer com ela diante do necessário desconforto à transformação.
Este é o paganismo em que confio: o das brechas e intersecções, o que não é apenas pequeno e pessoal. O que brota do desassossego como urtiga das cinzas.
Porque é uma forma de escutar e comunicar-se ao mundo com empatia e presença sensível, diante da complexidade. Ou de nada nos serve, porque quando nos olha Hécate, desviamos o olhar.
🖼 detalhe de túmulo, Carpideira na capela da Vista Alegre, Aveiro





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