Entre ruinas está, no centro do cemitério, o medieval santuário da Senhora de Entre-Vinhas.
Bem à porta da aldeia da minha Avó na Beira bem Alta.
Estamos aqui outra vez.
Desta vez, no Gerês, em Penamacor, em tantos demasiados lugares.
Aprendi a querer que o Verão passe depressa porque os bosques e as bruxas são queimados lado a lado desde sempre e a estação quente é uma febre de corrupção sem pudor.
Os nossos santuários nunca tiveram muros, são de árvores ancestrais, pedras, rios livres, animais.
Queimam-nos o corpo e o templo desde há milénios.
Emparedam-nos debaixo de cinza, de vidro, de grade, de muro. Sufocamos mas não esmorecemos.
Ardemos mas não esquecemos.
A cada geração e governo a mesma tragédia, o mesmo descaso, a mesma incúria.
Quem Ama a Floresta e a tem como Único Templo do Sagrado e do Divino não desiste.
Contaremos as histórias. Honraremos a Memória.
Beijaremos em prostração as cinzas e o carvão.
Semearemos as plantas. Reverenciaremos cada luto de seiva e de pelo. Educaremos até nos faltar a voz. Rugiremos pela raiva e pela dor que nos rasgam mas não desistiremos até que os Deuses sejam verdes e voltem. Como Carvalho, Urtiga e Rosa de duro espinho, a destruir as muralhas e masmorras que corrompem a humanidade.
Veremos cair o neo-feudalismo e a ilusória dominação da Natureza Sacra, ainda que do lugar dos ossos feitos chão.
Somos talvez o eco renascido da memória imperecível desses Ancestrais Serranos para quem a Pedra era imensamente mais Santa que o rosto nela esculpido. Lembrando que a Natureza não é nossa mas antes nós dela. É a Mãe Primeira, verde, viva e magnânime.
Sonho um tempo em que as igrejas existissem lado a lado com os ancestrais cultos pagãos, em vez de em cima e em dominação dos lugares arcaicos, havendo espaço para todos na sua diferença em respeito.
Porém o patriarcado domina pela normalização da destruição e usurpação.
Teria sido tão diferente um mundo onde a Floresta é Mãe, o Veado e o Javali Deus.
Onde os Ancestrais se tornam literalmente Bosque ao ser entregues ao chão vivo e verde do Bosque.
Assim, sendo o que é como é, que com o coração nas mãos e as mãos no chão, oremos diante dos escombros. Que possamos sentir a perda plenamente, porque é de um coração aberto que pode brotar nova vida e a possibilidade de sonhar e criar um mundo mais íntegro, onde somos uma força de preservação e reverência, jamais de violência.
Bem à porta da aldeia da minha Avó na Beira bem Alta.
Estamos aqui outra vez.
Desta vez, no Gerês, em Penamacor, em tantos demasiados lugares.
Aprendi a querer que o Verão passe depressa porque os bosques e as bruxas são queimados lado a lado desde sempre e a estação quente é uma febre de corrupção sem pudor.
Os nossos santuários nunca tiveram muros, são de árvores ancestrais, pedras, rios livres, animais.
Queimam-nos o corpo e o templo desde há milénios.
Emparedam-nos debaixo de cinza, de vidro, de grade, de muro. Sufocamos mas não esmorecemos.
Ardemos mas não esquecemos.
A cada geração e governo a mesma tragédia, o mesmo descaso, a mesma incúria.
Quem Ama a Floresta e a tem como Único Templo do Sagrado e do Divino não desiste.
Contaremos as histórias. Honraremos a Memória.
Beijaremos em prostração as cinzas e o carvão.
Semearemos as plantas. Reverenciaremos cada luto de seiva e de pelo. Educaremos até nos faltar a voz. Rugiremos pela raiva e pela dor que nos rasgam mas não desistiremos até que os Deuses sejam verdes e voltem. Como Carvalho, Urtiga e Rosa de duro espinho, a destruir as muralhas e masmorras que corrompem a humanidade.
Veremos cair o neo-feudalismo e a ilusória dominação da Natureza Sacra, ainda que do lugar dos ossos feitos chão.
Somos talvez o eco renascido da memória imperecível desses Ancestrais Serranos para quem a Pedra era imensamente mais Santa que o rosto nela esculpido. Lembrando que a Natureza não é nossa mas antes nós dela. É a Mãe Primeira, verde, viva e magnânime.
Sonho um tempo em que as igrejas existissem lado a lado com os ancestrais cultos pagãos, em vez de em cima e em dominação dos lugares arcaicos, havendo espaço para todos na sua diferença em respeito.
Porém o patriarcado domina pela normalização da destruição e usurpação.
Teria sido tão diferente um mundo onde a Floresta é Mãe, o Veado e o Javali Deus.
Onde os Ancestrais se tornam literalmente Bosque ao ser entregues ao chão vivo e verde do Bosque.
Assim, sendo o que é como é, que com o coração nas mãos e as mãos no chão, oremos diante dos escombros. Que possamos sentir a perda plenamente, porque é de um coração aberto que pode brotar nova vida e a possibilidade de sonhar e criar um mundo mais íntegro, onde somos uma força de preservação e reverência, jamais de violência.





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