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Honrar o Chão Vivo

por Íris Garcia

Entre ruinas está, no centro do cemitério, o medieval santuário da Senhora de Entre-Vinhas.
Bem à porta da aldeia da minha Avó na Beira bem Alta.
Estamos aqui outra vez.
Desta vez, no Gerês, em Penamacor, em tantos demasiados lugares.
Aprendi a querer que o Verão passe depressa porque os bosques e as bruxas são queimados lado a lado desde sempre e a estação quente é uma febre de corrupção sem pudor.
Os nossos santuários nunca tiveram muros, são de árvores ancestrais, pedras, rios livres, animais.
Queimam-nos o corpo e o templo desde há milénios.
Emparedam-nos debaixo de cinza, de vidro, de grade, de muro. Sufocamos mas não esmorecemos.
Ardemos mas não esquecemos.
A cada geração e governo a mesma tragédia, o mesmo descaso, a mesma incúria.
Quem Ama a Floresta e a tem como Único Templo do Sagrado e do Divino não desiste.
Contaremos as histórias. Honraremos a Memória.
Beijaremos em prostração as cinzas e o carvão.
Semearemos as plantas. Reverenciaremos cada luto de seiva e de pelo. Educaremos até nos faltar a voz. Rugiremos pela raiva e pela dor que nos rasgam mas não desistiremos até que os Deuses sejam verdes e voltem. Como Carvalho, Urtiga e Rosa de duro espinho, a destruir as muralhas e masmorras que corrompem a humanidade.
Veremos cair o neo-feudalismo e a ilusória dominação da Natureza Sacra, ainda que do lugar dos ossos feitos chão.
Somos talvez o eco renascido da memória imperecível desses Ancestrais Serranos para quem a Pedra era imensamente mais Santa que o rosto nela esculpido. Lembrando que a Natureza não é nossa mas antes nós dela. É a Mãe Primeira, verde, viva e magnânime.
Sonho um tempo em que as igrejas existissem lado a lado com os ancestrais cultos pagãos, em vez de em cima e em dominação dos lugares arcaicos, havendo espaço para todos na sua diferença em respeito.
Porém o patriarcado domina pela normalização da destruição e usurpação.
Teria sido tão diferente um mundo onde a Floresta é Mãe, o Veado e o Javali Deus.
Onde os Ancestrais se tornam literalmente Bosque ao ser entregues ao chão vivo e verde do Bosque.
Assim, sendo o que é como é,  que com o coração nas mãos e as mãos no chão,  oremos diante dos escombros. Que possamos sentir a perda plenamente, porque é de um coração aberto que pode brotar nova vida e a possibilidade de sonhar e criar um mundo mais íntegro, onde somos uma força de preservação e reverência, jamais de violência.

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Íris Garcia

AUTORA

Sou Mulher, Mãe, Mamífera, neuro-diversa e altamente sensível.

O meu trabalho é o entrelaçamento vivo de animismo, corpo, herbalismo e terapia.

Terapeuta de trauma, educadora eco-somática, herbalista, doula de nascimento, autora, bailarina, cerimonialista, investigadora do animismo (xamanismo) bio-regional celtibérico.

Curiosa e devota dos caminhos vivos que mapeiam o chão e a alma.

~

Todos os conteúdos são da autoria de Íris Garcia, que como criadora intelectual dos textos, detêm o direito autoral das mesmas sob a Licença Pública CC BY-NC-ND

Íris Garcia

Sou Mulher, Mãe, Mamífera, neuro-diversa e altamente sensível.
O meu trabalho é o entrelaçamento vivo de animismo, corpo, herbalismo e terapia. 
Actuo enquanto Terapeuta de trauma e doula, especializada em saúde feminina, trauma gestacional, de parto, pós parto, maternidade, perda e interrupção gestacional, trauma transgeracional, alta sensibilidade e neuro-diversidade. Educadora eco-somática, de dança ancestral ritual, animismo e paganismo Ibérico, centrado no culto das Senhoras enquanto Natureza Selvagem.Herbalista especializada em saúde da Mulher,  cozinha medicinal, tradições populares, eco-mitologia e culto pagão das plantas. Investigadora voraz, criadora ardente, facilitadora e autora no compromisso do cuidado ao sensível e ao profundo. Curiosa e devota dos caminhos vivos que mapeiam o chão e a alma.

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Todos os conteúdos são da autoria de Íris Garcia, que como criadora intelectual dos textos, detêm o direito autoral das mesmas sob a Licença Pública CC BY-NC-ND